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25 ABR 2018
Helga

Vivíamos um momento de intensa felicidade no casamento, na carreira, em família e com os amigos. Tudo parecia perfeito, mas faltava alguma coisa e aos trinta e cinco anos senti uma vontade inexplicável de ser mãe.

Tentamos ter nosso filho de maneira natural, porém logo tivemos a notícia de que eu teria uma complicação e que naturalmente a gravidez não aconteceria. Foi então que partimos para o desafio da fertilização. Há quinze anos, existiam poucos médicos que faziam este procedimento o que o tornava muito caro, tentamos duas vezes e, como não deu certo, acabamos desistindo e foi neste momento que tivemos a percepção que, para ter um filho, não precisaríamos gerar, precisaríamos criar e amar. Partimos para os trâmites da adoção, com entrevistas, visitas e enfim estávamos na fila.

Com a documentação toda pronta, ficamos muito ansiosos para ter logo uma criança e acabamos compartilhando com muitos amigos e, em um belo dia, tivemos uma  surpresa, recebemos um bebê na porta da nossa casa, alguém imaginou que seria bem recebido. E foi, só que por pouco tempo, após quatro meses de convívio e felicidade, começaram as ligações de chantagem para devolvermos a criança ou pagar valores em dinheiro. Ficamos muito decepcionados e por instrução do advogado acabamos devolvendo a criança aos pais. Foi muito triste, acho que uma das maiores dores que já sentimos na vida!

Passados seis meses, houve uma nova perspectiva de ter uma criança, ficamos sabendo de um caso onde a mãe teria que doar a criança após o nascimento pois não teria como criá-la. Sentimos que poderia ser bom para nós duas, para a mãe, a qual resolveria seu problema imediatamente, e para nós também. Passamos a acompanhar a gravidez sempre de longe, sem fazer pressão e, logo após o nascimento, ela nos chamou, nos fez prometer que criaríamos o bebê de forma carinhosa e que faríamos dele uma pessoa educada, preparada para a vida, afinal, uma pessoa do bem.

Estávamos muito, mas muito felizes, e procuramos o juizado para registrá-la. Porém para nossa surpresa, não poderíamos ficar com a criança, pois ela teria que ir para um orfanato. Daí começou nossa aflição. Havíamos prometido para a mãe que nós cuidaríamos do bebê, e agora não podíamos fazê-lo. Resolvemos entrar na justiça para requerer a guarda, mostrar que fizemos tudo certo e que não teriam motivo para nos retirar o bebê. Porém, mesmo assim, a justiça insistia que durante o processo o bebê teria que ir para um orfanato.

Enquanto aguardávamos as notícias do advogado, fomos surpreendidos em casa por um oficial de justiça que queria levar a criança. Foquei apavorada e com ajuda de meu esposo, fugi para o apartamento de uma amiga com o bebê no colo. Meu marido despistou o oficial.

Foi então que bolamos um plano meio maluco, mas que seria a única chance de ficar com o nosso filho. Resolvemos sumir até acabar o processo. Desta forma, nós poderíamos ter nossa vida com o bebê desde os primeiros dias com  tranquilidade, que era o que precisávamos. Para a justiça, pode não ser importante, mas para nós, era tudo. Fiquei durante seis meses escondida, longe da nossa casa, da família, do trabalho e dos amigos, na casa de uma amiga que me ajudou muito. Foram dias muito tensos e incertos e o que me dava força era ver aquele serzinho tão frágil e tão importante.

Após seis meses de angústia, recebemos a notícia de que o juiz havia lido o processo e percebido que não havia motivos para negar a guarda. Após esta notícia, voltamos para nossa casa, desta vez sem medos, para começar uma história em família.

Hoje, passados quatorze anos, posso dizer que neste dia eu fui completamente feliz! Tudo valeu a pena, hoje, somos muito felizes. Afirmo que pensamos que faríamos um bem a uma criança, mas quem nos faz muito bem mesmo, é ele. 

Te amamos filho!!!